Corujas, de Caio Fernando Abreu

O conto Corujas está presente na obra O inventário do irremediável, de 1995, coincidentemente, o ano em que nasci. Corujas nada mais é - falando apenas no conjunto das palavras que montam o texto - o relato da estadia de dois seres estranhos, aos olhos humanos, em um curto período de tempo em um lugar totalmente estranho e cheio de outros seres estranhos, aos olhos das corujas. É também a confissão do comportamento do narrador e de sua família diante dos novos integrantes e da interação entre eles. Acredito que o conto seja reflexo de algum fragmento vivido por Caio em sua infância e por isso ele o dedica aos seus pais e irmãos.

O conto é bem curtinho e dividido em cinco partes: Introdução, A Chegada, Batismo, A fome e Desfecho. Rasputin e Cassandra, como são batizadas as corujas pelo narrador, chegaram nessa residência em uma manhã bem cedo, levando para aquele ambiente curiosidade e de certo modo mudando a rotina daquela casa. Para os adultos não fazia muita diferença a presença dessas criaturas ali, mas para as crianças era algo completamente novo e extraordinário passar horas do dia acompanhando esses animais cheios de penas cinzentas que só se alimentavam de baratas. 

Existe uma frase no meio do conto com um peso tão grande que toda ideia dele se concentra nela e é a seguinte:

"O homem que as trouxera informara a minha mãe de seu orgulho: feridas em liberdade fazem greve de fome até a morte."

E outra, no final do conto:

"Orgulhosas, passeavam seus estômagos vazios pela casa toda, a gente se olhando culpado, as mãos desertas de soluções."

É tão pesado e triste isso. A forma como nos comportamos diante de seres em realidades completamente diferentes das nossas. Privar o outro do lugar que o pertence, da vida que o pertence a ponto dele desejar a morte. Inexplicável.  Este conto me marcou de um jeito singular. Viver em liberdade requer tanto esforço e luta, seja interna ou externa, requer.  A meu ver, no conto, as corujas são apenas figuras, no escasso de memória para encontrar uma palavra melhor, para nos mostrar que às vezes limitamos a liberdade dos outros ou limitam a nossa liberdade de forma tão ingênua e imperceptível que nem nos damos conta disso.

Caio veio ao meu encontro em um momento de extrema necessidade dele, embora eu nem sabia disso. Só me dei conta que eu precisava das palavras desse autor quando seu trabalho começou a me curar de feridas escondidas. No conto Corujas Caio penetra o leitor sussurrando com sua escrita gentil e sucintamente detalhista. E assim é até que no interior de quem está lendo o conto o sussurro ganha força e se transforma em um grito: Acorda! Um grito de repreensão e ajuda, não agressivo. 

Embora este conto tenha sido publicado em O inventário do irremediável, eu o li em uma reunião dos melhores contos e crônicas escritos pelo autor publicada em 2015 pela editora Nova Fonteira. Volto depois para comentar sobre a coletânea na íntegra. 



Obrigado por ler até aqui. Grande abraço e até a próxima. 

Um comentário:

  1. Douglas! <3

    Não sei nem dizer o quanto amei sua resenha de estreia aqui no site. Caio é um dos meus autores favoritos da vida. E você resumiu tão bem o que ele também representa pra mim quando escreveu: "Caio veio ao meu encontro em um momento de extrema necessidade dele, embora eu nem sabia disso." É ISSO! ♥

    Esse conto do Caio eu ainda não li, mas lendo o que você escreveu sobre ele já imagino o quão incrível ele é. Suas reflexões sobre a história me fizeram lembrar do livro A Metamorfose. Como pode ser desafiador lidar com o diferente, né? A ponto de desejarmos que ele não exista.

    Estou muito feliz por ter você aqui no site agora. Compartilhando suas impressões de leitura. Você consegue se expressar perfeitamente sobre como se sente. Beijos, e ótimas leituras! <3

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