Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo

Olhai os Lírios do Campo foi escrito pelo incrível Érico Veríssimo no ano de 1938. O título nada mais é do que um fragmento do Sermão da Montanha que está presente nos evangelhos de Lucas e Mateus. A história do livro se passa na época em que ele foi escrito e por isso ele se torna um retrato histórico. 1938 foi o ano em que Getúlio Vargas ocupa o poder e ao caminhar os olhos pelas linhas deste livro encontramos algumas passagens referentes à este governo. Foi através deste livro que o Veríssimo ganhou nome, pois na época em que foi publicado as vendas explodiram e o livro fez imenso sucesso. E o engraçado é que mesmo o autor não achando a sua obra lá grandes coisas, ele se tornou o preferido para muitas pessoas, inclusive para mim. Olhai os Lírios do Campo é meu livro favorito desde muito tempo e por isso eu resolvi fazer a releitura e falar um pouco da minha experiência com este livro aqui no blog. 

A história que encontramos aqui não é linear. Ela se passa em dois tempos. Acompanhamos a vida atual do protagonista e paralela à ela tudo o que ele passou da infância até a vida adulta, uma estratégia interessante do escritor para permitir que o leitor entenda melhor a vida e as atitudes do personagem principal, Eugênio. A história do livro se inicia com o Eugênio recebendo a ligação de uma enfermeira, dizendo que uma pessoa muito especial pra ele está entre a vida e a morte. Ele chama o motorista às pressas e dá uma desculpa formal à esposa, que friamente finge acreditar na desculpa. É entregue ao leitor a informação que da casa de Eugênio até o hospital gasta-se três horas de carro. E é neste tempo que podemos acompanhar todos os pensamentos de Eugênio, flashbaks de toda a sua vida desde a infância.

A família de Eugênio é composta por ele, um irmão mais novo, Ernesto, a mãe lavadeira e o pai alfaiate. Eram muito pobres e devido à esta pobreza foram inúmeras as vezes que em Eugênio foi humilhado. Toda miséria e humilhação ativou em Eugênio uma ambição cega. Naquela época era comum que as famílias pobres arcassem com a educação de apenas um filho e como ele era mais velho que Ernesto, ele teve essa sorte. Estudou e com muito esforço se formou em medicina. Ler sobre a infância de Eugênio e da sua relação com a família é algo muito doloroso. A leitura arde em carne viva devido à realidade dos sentimentos. Eugênio tinha uma relação muito estranha com o pai, não é que ele não o amasse, mas muitas vezes culpava o pai pela pobreza, pelos cobradores que estavam sempre batendo na porta de casa e pela simplicidade da vida que eles levavam. Uma cena muito famosa e triste do livro é quando Eugênio caminha pela praça da cidade com dois amigos ricos da faculdade e encontra com o pai, que tira o chapéu, faz uma reverência e o cumprimenta pelo apelido, Genoca. Naquele momento a vergonha agarra Eugênio pelo pescoço sufocando-o e ele finge que não viu o pai. Mais tarde no jantar, o pai nada fala, apenas olha para o filho com um olhar de desculpas, como se ele devesse as desculpas. É uma cena esmagadora!

No dia em que se formou, Eugênio conheceu Olívia, uma colega de classe que também estava se formando, mas os dois nunca haviam tido contato um com o outro. Neste dia isso mudou. Olívia é uma mulher de alma Cristina. Não reclama da vida. Vê esperança no fim do túnel. Acredita na benção depois da desgraça. Chega a ser um incômodo para alguns leitores a bondade dessa personagem. Juntos eles construíram uma amizade forte. Olívia era o refúgio de Eugênio. Ela passa a ser para ele o lugar onde ele encontra paz, encontra respostas, encontra força e principalmente, coragem. Ao lado dela ele não tinha medo de falar, perguntar ou ser. Essa amizade se transforma em um pequeno romance até que Olívia vai embora para Nova Itália. No tempo em que ela está fora, Eugênio conhece Eunice. Uma mulher vaidosa, bonita e pertencente a uma das famílias mais ricas da cidade. Eunice queria alguém que a fizesse se sentir poderosa, superior e caridosa. Eugênio queria dinheiro e se livrar da pobreza. E assim se casaram. Com interesses arrogantes. Um afronte ao amor.

Vivendo na alta sociedade, Eugênio começa a observar o comportamento dos homens mesquinhos e assim surgem os questionamentos dentro de si. No meio da ganância, da soberba e da prepotência é que Eugênio começa a ser incomodado internamente por seus valores antigos e pelas palavras de Olívia sobre ser bom e fazer o bem independente de qualquer circunstância. Quando Olívia volta, ela traz consigo o fruto da antiga relação dela com Eugênio, Ana Maria. Com todos esses questionamentos, a chegada da filha de quase três anos e um acontecimento trágico, a vida de Eugênio está prestes a passar por um divisor de águas, e ele se vê obrigado a tomar decisões difíceis, passar por cima do orgulho e correr atrás do que realmente importa, se abdicando agora de várias vaidades. 

O livro é composto de vários personagens tão importantes e com experiências de vida tão significativas que durante a leitura a gente começa a se questionar e a pensar sobre o que realmente importa enquanto estamos nessa curta peregrinação aqui na terra. E é isso que o torna interessante. Olhai os Lírios do Campo é um livro singelo, cheio de simplicidade. O Érico Veríssimo consegue contar com leveza como a vida pode ser pesada às vezes. Como nossos relacionamentos são importantes. Como dói perder alguém. Como é preciso viver o hoje observando os lírios do campo para depois não vivermos amargurados, cansados e arrependidos. É muito comum nas desgraças  surgirem oportunidades para nos tornarmos pessoas melhores e menos mesquinhas. 

Única ressalva que tenho a fazer sobre a releitura é um pouco parecida com a do autor após escrever o romance. Eu o achei um pouco melodramático demais dessa vez. Na primeira vez em que o li eu estava tão extasiado pela história que eu não consegui perceber nada disso. Com a cabeça que tenho hoje fiquei um pouco cético quanto aos pensamentos de Olívia sobre a bondade no mundo e nas pessoas também. No entanto é uma leitura que eu recomendo muito. É um livro necessário, que acrescenta e conversa com a gente.


Título: Olhai os lírios do campo
Autor: Érico Veríssimo
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 288

Muito obrigado por ler até aqui. Em breve eu volto com uma postagem só com algumas citações deste livro. São incríveis. Grande abraço!

Um comentário:

  1. Oi Douglas
    Li esse livro há alguns anos, quase dez anos, acho. Lembro que amei de mais ler ele. Eu tinha um exemplar com a capa igual da imagem do post, mas emprestei e nunca mais me devolveram. A Amazon disponibilizou ele gratuitamente há um tempo e o baixei. Quero muito fazer essa releitura. Sobre a bondade extrema da Olívia, me deixava um pouco incomodada, sim, mas também me mostrava que eu não estou sozinha no mundo. Tendo a sempre enxergar o melhor nas pessoas e nas situações.

    Vidas em Preto e Branco

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