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Controle, de Natalia Borges Polesso

Logo após uma péssima experiência de leitura comecei a ler o livro Controle, da autora Natalia Borges Polesso. Nas primeiras páginas já fiquei tão preso que o desejo de engolir o livro de uma só vez foi intenso. Eu acredito muito na lei da atração e sinto que o meu interior recebeu este livro como um presente que ele precisava naquele momento. Este é o tipo de livro que nos revigora quando chegamos quase a esquecer do quão generosa uma leitura pode ser, nos tira do automático e traz de volta as emoções de uma boa leitura. Me antecipo dizendo que recomendo muito a leitura de Controle e que desejo muito ler outras coisas dessa autora que fez um trabalho genial aqui.

O livro traz como protagonista Maria Fernanda, que foi uma criança esperta, intensa e que amava viver aventuras com sua turma de amigos. Fazia de tudo e era super apaixonada por bicicletas e pelas as emoções radicais que elas podem proporcionar. Teve uma infância comum acompanhada de seus amigos, sendo os principais, Joana, Davi e Alexandre. Fez tudo que uma criança normal podia fazer. Deu até um selinho quando cursava o sétimo ano. Foi em algum momento entre a pré-adolescência e a adolescência que algo aconteceu. Uma queda. Uma crise. Uma estranhez. Um diagnóstico: Epilepsia. 

Depois da primeira crise vieram várias outras e mais outras. Surgiram no meio do furacão as piadinhas maldosas dos colegas, a superproteção dos pais, o afastamento, a vida infrequente. Nanda não era mais tão autêntica, aprendeu a viver dentro de uma concha que a isolava da vida real. Só existia uma realidade pra ela agora, a doença. Depois de diagnosticada com "atividade excessiva e anormal de células cerebrais" veio limitação, a falta de esforço, a acomodação e pior perigo de todos: a zona de conforto. Seus pais resolviam tudo e foi assim que tomaram o controle de sua vida. 

Alguns amigos se afastaram e o contrário também aconteceu. Joana e Davi resistiram e continuaram sendo os melhores amigos de Nanda. Os anos foram passando. As pessoas entravam e saíam da faculdade, arrumavam emprego, tinham filhos, se casavam e já no final da casa dos vinte, Maria Fernanda parecia estagnada, vivendo uma vida tristemente pausada. Era como se tudo estivesse em movimento e ela não. Seu corpo mudou, seus desejos mudaram, mas não havia mais nem sonhos e nem planos. Sua vida resumia na superproteção dos pais, na insistência dos amigos e claro, na epilepsia. 

Maria Fernanda percebe na relação com sua melhor amiga, Joana, um amor mais caloroso e um carinho excessivo. Algo dentro dela parece errado e ela começa a questionar seus desejos sexuais. O que houve com a normalidade? Nada seria normal na vida dessa jovem? É aí que entra a grande questão: A normalidade, de fato, existe? Ou é apenas uma suposição criada por nós mesmos baseado no que é mais comum? Existe um desenrolar incrível neste livro quanto a isso. A autora trabalha esse assunto de uma forma digna e natural. Enxergamos a realidade aqui. Quem viveu na pele tais questionamentos quanto a sexualidade vai se identificar muito com os da personagem principal.


Título: Controle
Autor: Natalia Borges Polesso
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 172

Controle é um livro sutil. Com poucas páginas e muita delicadeza são tratados assuntos que na maioria das vezes são difíceis de serem abordados. O livro nos abraça, pelo menos me abraçou. Eu tive vontade de rever muita coisa em minha vida e eu amo quando isso acontece. Sinto que a leitura foi útil e dessa vez, necessária. O que mais me emocionou na leitura foi perceber que não existe um momento exato para recomeços e pode passar o tempo e tudo mudar, mas a vida vai continuar sendo vida, cheia de possibilidades. E pra quem gosta de referências musicais em livros este é ideal pois o livro é todo recheado com citações de letras da banda New Order.

A escrita da Natalia é sincera, informal e poeticamete cativante. A leitura foi tão envolvente que passei alguns dias sentindo falta não somente dos personagens como é comum acontecer, eu sentia falta também da escrita dela. Da concentração que ela proporciona. Tem paixão no trabalho dessa autora e isso é muito significativo para nós leitores, a gente saber que ainda existem pessoas atuais tão dedicadas à escrita. Isso é grandioso e perigoso, pois quando a escrita é mágica ela pode delicadamente roubar o controle de nossas vidas por algumas horas. 

Muito obrigado por ler até aqui. Até a próxima, grande abraço. 

Mulheres que receberam o Nobel de Literatura

O Prêmio Nobel de Literatura foi criado em 1901 e é atribuído a um autor ou autora de qualquer nacionalidade. Desde que foi criado — em quase todos os anos — a Academia Sueca faz a entrega do prêmio. Nesses seus 118 anos de existência, 114 pessoas já foram premiadas.

A premiação só não aconteceu nos períodos de guerra e também não aconteceu em 2018. Isso porque, no ano passado, alguns membros da Academia Sueca e da própria Fundação do Nobel foram acusados de assédio e agressão sexual.


Foi noticiado no início desse ano que, em 2019, o prêmio será atribuído a duas pessoas para compensar a suspensão do prêmio em 2018. Na nota, emitida pelo Conselho de Administração da Fundação Nobel, eles avisam que foram tomadas medidas para restabelecer a confiança na instituição e no prêmio.

Um brasileiro nunca recebeu o Nobel de Literatura. Aliás, em língua portuguesa apenas um autor já foi premiado: José Saramago. Apenas seis autores latino americanos já receberam o Nobel de Literatura e, desses seis, apenas uma mulher.

Este é o Mar, de Mariana Enriquez

Em Este é o Mar, Mariana Enriquez constrói uma história que une o sobrenatural ao real. A autora nos apresenta um universo em que as lendas do rock são criadas por criaturas mitológicas femininas. Criaturas que estão sempre em movimento, que nunca dormem e que se alimentam da devoção das fãs humanas pelos astros do rock.

Essas criaturas conseguem se misturar aos humanos e viver no meio deles sem que eles saibam quem elas realmente são. E, dessa forma, utilizam de sua influência e poder, para incentivarem os humanos a consumirem freneticamente o trabalho de algum músico para que assim, ele se torne uma lenda, se torne inesquecível.


Temos foco na história da Helena que é uma dessas criaturas mitológicas. No início ela vive no Enxame, ou seja, ela e milhares dessas criaturas se misturam às fãs humanas para estimularem essa idolatria a alguma banda ou artista. Mas a Helena quer mais, ela quer se tornar uma Luminosa. E para isso precisa conseguir tornar o James Evans, vocalista de uma banda chamada Fallen, uma lenda do rock. E ela não mede esforços pra que isso aconteça. Aliás, esse foi um fato surpreendente durante a leitura, as coisas que ela teve coragem de fazer.

Uma mulher no escuro, de Raphael Montes

No dia em que completou quatro anos de idade Victória vivenciou algo sombrio e devastador. Ela presenciou o assassinato de seus pais e de seu irmão mais velho na sua própria casa. Após a ocisão o assassino pichou a cara de todos os mortos de preto e inclusive a cara da Victória, pois ele achou que ela também estava morta, porém ele havia apenas aleijado sua perna. E naquela noite de horror em que ela mergulhava em uma vida de escuridão ela só tinha a companhia de seu ursinho de pelúcia, Abu.

Após a narrativa daquela noite pulamos para o primeiro capítulo que nos remete à Victória com vinte quatro anos, solitária, resistente e com muitas dificuldades para confiar nas pessoas e em se socializar. Atualmente ela trabalha em uma lanchonete e mantém contato apenas com uma tia avó que vive em um asilo, um amigo, Arroz, que tem uma paixão platônica por ela, um cara chamado Jorge que frequenta bastante a lanchonete que ela trabalha  pelo qual ela se apaixona e seu terapeuta, Dr. Max, que se voluntariou para cuidar de seu caso e está conseguindo desenterrar em Victória a coragem para se abrir para a vida e para algumas pessoas que estão mais próximas à ela. 

Graças ao novo terapeuta a vida de Victória parece estar caminhando contra a escuridão. Ela está conseguindo viver novas experiências e até se arrisca numa paixão e em relacionamentos pessoais mais abertos. Mas é aí que acontece algo que faz Victória parecer a mulher mais sem sorte do mundo. Um desespero toma conta do seu interior quando um dia ela entra em seu apartamento e descobre que o pichador estava de volta. Em sua parede havia pichada a frase "vamos brincar?" e seu ursinho de pelúcia, que antes era branco, estava coberto de tinta preta.

Querido Evan Hansen, de Val Emmich

Publicado no Brasil em Abril de 2019, o livro Querido Evan Hansen traz a adaptação do premiado musical da Broadway Dear Evan Hansen. Pelo que pesquisei este musical é o preferido de muitas pessoas, ainda não tive a oportunidade de assisti-lo, mas ouvi algumas músicas dele e pelo título de cada uma delas pude perceber uma certa fidelidade entre os dois.

Filho de uma mãe que trabalha e estuda muito e de um pai ausente, com o qual houve tentativas frustadas de aproximação e sem amigos, Evan Hansen sofre de ansiedade. Em uma de suas consultas seu terapeuta recomendou que Evan escrevesse cartas para si mesmo. E todas elas ele começava da seguinte forma "Querido Evan Hansen...".

No último verão Evan trabalhou como ajudante de guarda florestal, onde caiu de uma árvore e quebrou o braço. No gesso que cobria o braço do garoto, sua mãe viu a oportunidade dele fazer novos amigos na escola, as pessoas poderiam assinar, se aproximando dele.  E isso de fato acontece. Alguém assina no gesso: CONNOR. No entanto, acontece uma discussão entre eles e uma das cartas de Evan vai parar nas mãos erradas. E o fato de Connor ter em mãos algo tão íntimo que Evan havia escrito para si mesmo o deixa bastante perturbado por uns dias.

O que o sol faz com as flores, de Rupi Kaur

Em 2014 Rupi Kaur lançou um livro de poesia inovador, empoderado, estrondoso. Outros jeitos de usar a boca ficou por muito tempo na lista dos mais vendidos da New York Times. O sucesso foi tamanho que o livro foi traduzido para mais de trinta idiomas. Eu só tive a oportunidade de lê-lo em 2018 e, como a maioria, fiquei chocado, extasiado com a leitura. Três anos após o lançamento do primeiro livro, em 2017, Rupi lança seu segundo trabalho intitulado originalmente como The sun and her flowers, na nossa tradução como O que o sol faz com as flores. O livro é dividido em cinco partes: Murchar, Cair, Enraizar, Crescer e Florescer. Quando tive o livro em mãos a primeira coisa que me chamou a atenção foi o nome de cada tópico. Vamos conversar um pouco sobre eles. Só pra adiantar, este não é o tipo de livro que você pega e diz "vou ler uma poesia por dia", não adianta, você não vai conseguir. 

Murchar: A intensidade está marcada na escrita da Rupi, a pele dela grita e ela escreve. Nesta primeira parte do livro nos deparamos com o sofrimento, isolamento, a não aceitação de um fim, os questionamentos sobre algo que poderia ter sido, mas que já não é mais. É normal apaixonarmos pelo que inventamos da pessoa e não pelo que ela é de fato. E no sofrimento é quase impossível enxergarmos isso, não é mesmo? E em várias poesias deste tópico lemos sobre este desacontecimento. Quando você se doa e a outra pessoa não faz o mesmo, ela vai embora e leva tudo de você. Neste momento de abandono você não é nada. Você não é ninguém. Tudo que você tinha dentro de si. Tudo que você era. Foi levado. É o momento necessário para se reconstruir, ativar o modo fênix. A escrita da Rupi nos atinge com um baque tão forte que é preciso alguns segundos para respirar ao final de cada poesia. Por mais que a leitura te sufoca algumas vezes, não adianta, você vai querer prosseguir. 

Quatro velhos, de Luiz Biajoni

Possivelmente uma das nossas maiores falhas é não valorizar os bons momentos comuns do nosso dia a dia. Muitas vezes só valorizamos os dias atípicos em que fazemos algo bom que foge da rotina. Mas há beleza nas ações rotineiras, nós é que precisamos mudar o nosso olhar.

Essa leitura me marcou por vários motivos, mas principalmente por me fazer olhar com mais cuidado para os pequenos prazeres do cotidiano. Somos instantes. Então, que saibamos apreciar todos eles.

Mas, nesses mais de quarenta anos, a impressão que ele tinha é a de que fizeram pouco, muito pouco, juntos. Muitas vezes ele chegava tarde em casa e ela já estava dormindo. Ou ela estava passando mal de cólicas menstruais. Ou ele passava o final de semana analisando gráficos da empresa. Não sabia precisar, mas parecia, a ele, que tinham passado pouco tempo juntos, tinham desfrutado pouco em conjunto. (Página 57)

No prólogo do livro o autor — Luiz Biajoni — nos conta que desenvolveu esse romance a partir de um boato que ouviu no final dos anos 1980, que dizia que um morador de uma cidade pequena do interior paulista seria filho bastardo do ditador italiano Benito Mussolini. Por querer saber mais sobre esse boato, acabou conhecendo a história de outros três personagens e é essa a história que ele nos conta. Porém, esse boato é apenas um detalhe da história, o foco está nas relações entre esses personagens.

Uma receita para a liberdade, de Maurício Rosa

Quando conheci o livro do Maurício Rosa foi a premissa que logo chamou a minha atenção, pois se trata de uma história que envolve suspense, crime, drama e gastronomia. Não sei vocês, mas eu nunca tinha lido nada que trouxesse a junção desses elementos e já adianto que foi uma mistura improvável (e inusitada) que deu certo.

O livro começa com uma carta de uma mãe para um filho escrita em 1990 e, através dessa carta, sabemos que eles estão separados há dois anos e que o filho está em um orfanato sob os cuidados de uma agente social, mas, a princípio, nós não sabemos o motivo da separação.

A mãe que escreveu a carta é a Anabela e, à medida que avançamos na história, sabemos que ela está em uma clínica de reabilitação porque cometeu um crime. E durante algum tempo da leitura ficamos nos questionando: qual foi o crime que ela cometeu? E porque ela está em uma clínica e não em uma prisão? Depois de alguns capítulos encontramos as respostas para essas perguntas.

Anabela, antes da internação, era uma chefe de cozinha de muito prestígio. E após algum tempo nessa clínica, ela recebe uma proposta da diretora do lugar. A diretora — além de corrupta — é também dona de um restaurante e quer ganhar um concurso gastronômico muito importante. Se Anabela ajudá-la a vencer o concurso terá sua pena reduzida.

Olhai os Lírios do Campo, de Érico Veríssimo

Olhai os Lírios do Campo foi escrito pelo incrível Érico Veríssimo no ano de 1938. O título nada mais é do que um fragmento do Sermão da Montanha que está presente nos evangelhos de Lucas e Mateus. A história do livro se passa na época em que ele foi escrito e por isso ele se torna um retrato histórico. 1938 foi o ano em que Getúlio Vargas ocupa o poder e ao caminhar os olhos pelas linhas deste livro encontramos algumas passagens referentes à este governo. Foi através deste livro que o Veríssimo ganhou nome, pois na época em que foi publicado as vendas explodiram e o livro fez imenso sucesso. E o engraçado é que mesmo o autor não achando a sua obra lá grandes coisas, ele se tornou o preferido para muitas pessoas, inclusive para mim. Olhai os Lírios do Campo é meu livro favorito desde muito tempo e por isso eu resolvi fazer a releitura e falar um pouco da minha experiência com este livro aqui no blog. 

A história que encontramos aqui não é linear. Ela se passa em dois tempos. Acompanhamos a vida atual do protagonista e paralela à ela tudo o que ele passou da infância até a vida adulta, uma estratégia interessante do escritor para permitir que o leitor entenda melhor a vida e as atitudes do personagem principal, Eugênio. A história do livro se inicia com o Eugênio recebendo a ligação de uma enfermeira, dizendo que uma pessoa muito especial pra ele está entre a vida e a morte. Ele chama o motorista às pressas e dá uma desculpa formal à esposa, que friamente finge acreditar na desculpa. É entregue ao leitor a informação que da casa de Eugênio até o hospital gasta-se três horas de carro. E é neste tempo que podemos acompanhar todos os pensamentos de Eugênio, flashbaks de toda a sua vida desde a infância.

Deus ajude essa criança, de Toni Morrison

Deus ajude essa criança foi o livro que selecionei para ler em fevereiro na minha meta dos 12 livros para 2019. Fiz uma lista temática escolhendo, para cada mês, um autor ou autora aniversariante. A autora do mês, Toni Morrison, completou 88 anos no dia 18 de fevereiro.

Toni Morrison é escritora, editora e professora estadunidense. Publicou o seu primeiro romance em 1970, aos 39 anos. E, 23 anos após seu primeiro romance ter sido publicado, recebeu o prêmio Nobel de Literatura. Sendo, em 1993, a primeira mulher negra a receber esse prêmio.

Deus ajude essa criança (God Help the Child no original) foi publicado em 2015 (chegou ao Brasil em 2018 pela Companhia das Letras) e é o décimo primeiro romance da autora. Toni Morrison é negra e o racismo é tema frequente na maioria das suas obras. Nesse livro, além do racismo a autora aborda também o colorismo.

A questão do colorismo já havia sido abordada pela autora em seu primeiro romance, O olho mais azul (livro que ficou esgotado no Brasil por algum tempo, mas recentemente ganhou nova edição pela TAG Curadoria). Explicando de maneira simplificada, colorismo significa que quanto mais pigmentada for a pele de uma pessoa, mais excluída e discriminada ela será. Isso significa que a tonalidade da pele de uma pessoa negra poderá diferenciar a forma que ela é tratada, sendo ‘melhor aceitos’ os tons mais claros.

Os ovos azuis da serpente, de Roberto Marcos

Os ovos azuis da serpente, livro publicado em 2017 de forma independente pelo autor mineiro Roberto Marcos, traz a história de quatro personagens um tanto peculiares e, ao nos apresentar a vida de cada um deles, o autor consegue levantar questionamentos necessários e muitas vezes incômodos.

Conhecemos Bella Flor (A Caçadora de Prazeres), por trabalhar como prostituta é uma mulher que recebe olhares incriminadores  e comentários hostis por parte de muitos — talvez até do próprio leitor. Ela possui alguns critérios para selecionar os seus clientes e não cobra pelos programas que faz. Aos poucos vamos conhecendo melhor a sua história e as suas motivações. Benjamin (O fazedor de dinheiro), personagem pragmático, sistemático que ganha a vida emprestando dinheiro a jurus altíssimos. Bizet (A aprendiz de bruxarias) herdou bastante conhecimento esotérico da sua avó — sobre magia e plantas medicinais. Por essa razão ela é tida por bruxa, assim como algumas de suas ancestrais. Bento (O quase morto quase vivo) que vive — praticamente — num estado vegetativo. Mas não porque tem alguma doença e sim porque vive na inércia, em momentos de contemplação.

Esses quatro personagens — juntamente com o porteiro 'faz tudo' — são os únicos moradores de um mesmo edifício — o edifício Parque dos Pardais. Por morarem no mesmo prédio imaginamos, a princípio, que se eles não são amigos são, pelo menos, conhecidos. Mas não. Eles sequer se veem, não têm um mínimo de convivência. E, essa privacidade é possível porque em cada andar do prédio, tem apenas um apartamento.

Como não poderia deixar de ser, existe muito boato na vizinhança acerca da vida dessas pessoas, muito se especula sobre as vidas tão reclusas que levam. O próprio porteiro do prédio — Antonio Taiobeiras — sempre que tem uma oportunidade aproveita para bisbilhotar a vida dos demais moradores do prédio.

Então, esses personagens que, em um primeiro momento, parecem tão diferentes entre si, têm algo em comum: o isolamento, a solidão. Mas não só, vamos descobrindo, aos poucos, o que os conecta. Acontecimentos traumáticos, assassinatos, vidas de aparências onde tentavam transmitir algo que não eram. À medida que avançamos na leitura somos surpreendidos mais e mais com os fatos que surgem; muito mistério envolve a vida de todos eles.

Édipo Rei, de Sófocles

Édipo Rei é uma peça de teatro grega — uma tragédia grega — escrita por Sófocles por volta de 427 a.C.. E é considerada por muitos, inclusive por Aristóteles, como o mais perfeito exemplo de tragédia grega. 

Sófocles foi muito prestigiado pelas peças que escreveu recebendo, ainda em vida, vários prêmios por suas publicações. E ele produziu bastante, é estimado que tenha escrito cerca de 120 peças, mas infelizmente muitas delas se perderam; dessas 120 apenas 7 restaram inteiras. Uma das peças que ficaram inteiras é Édipo Rei que faz parte da Trilogia Tebana. Essa trilogia é composta pelas peças: Édipo Rei, Édipo em Colono e Antígona.

Ao lado de Romeu e Julieta e Hamlet, de Shakespeare. Édipo Rei é a peça de teatro mais conhecida da literatura ocidental. E é uma obra interessante de ser lida, claro, pela sua importância para a literatura, mas é uma leitura de fato interessante. Talvez o fato de ter sido publicada em 427 a.C afaste algumas pessoas dessa leitura, por achar que vai ser difícil, enfadonho e com um vocabulário incompreensível. Mas não é. É uma leitura que prende, instiga e flui muito bem. No vídeo abaixo comento com vocês as minhas impressões sobre essa leitura.

Caninos Brancos, de Jack London

Caninos Brancos foi minha leitura de janeiro da meta dos 12 livros para 2019. Fiz uma lista temática selecionando para cada mês um autor aniversariante. Jack London nasceu no dia 12 de janeiro de 1876 e morreu jovem, aos 40 anos. Mas mesmo com uma vida relativamente curta ele produziu bastante, tendo escrito mais de 50 livros; entre romances e contos.

London teve uma vida movimentada, cheia de desafios e aventuras. E, assim como tantos autores, ele escreveu sobre as realidades que viveu, sendo uma das mais conhecidas a realidade da corrida do ouro no Alasca, na qual se insere Caninos Brancos.

Em 1903, Jack London publicou o seu segundo romance: O Chamado Selvagem, nele o autor traz a história de um cão doméstico que precisa se adaptar à vida na floresta e se transforma em um lobo selvagem. Em 1906 publicou Caninos Brancos e, nesse livro, o autor faz o caminho inverso, pois traz a história de um lobo que acaba sendo domesticado pela civilização. 

O autor se utiliza da história de vida de um lobo como uma analogia ao próprio ser humano. A princípio tive receio de que fosse uma leitura entediante e inverossímil, mas não é. É uma leitura interessante e envolvente; uma ideia inusitada que o autor consegue executar de forma admirável.

Todo dia, de David Levithan

Provavelmente eu seja a última pessoa no mundo a ter lido o livro Todo dia, mas eu preciso falar sobre ele. Farei um breve resumo pra quem é atrasado pra tudo na vida - assim como eu - e ainda não sabe do que se trata este livro. Todo dia vai nos trazer a história de uma pessoa, um ser, extremamente incomum, chamado A. A não tem gênero, não tem família, não tem amigos e muito menos um corpo próprio. Só existe um padrão em sua vida, a  idade. Ele/ela acorda todos os dias em um corpo diferente, mas sempre no corpo de pessoas que possuem a mesma idade que a sua existência. 

"Não vou de 16 anos para 60. Nesse momento, é apenas 16. Não sei como isso funciona, nem o porquê. Parei de tentar entender há muito tempo. Nunca vou compreender, não mais do que qualquer pessoa normal entenderá a própria existência. Depois de algum tempo é preciso aceitar o fato de que você simplesmente existe"

Estava tudo bem (na medida do possível, na verdade, porque deve ser muito difícil estar tudo bem vivendo dessa maneira) até que A acorda no corpo de um garoto super grosseiro e estúpido chamado Justin e se apaixona pela namorada dele, Rhiannon. Os dois vivem um dia incrível juntos, e claro, a garota nota uma diferença tremenda no namorado. No dia seguinte, A não está mais no corpo de  Justin, mas não consegue parar de pensar em Rhiannon. E assim começa a maior aventura da vida de A: fazer de tudo para estar perto de Rhiannon, e nesta tentativa, algumas coisas que não deveriam acontecer acabam acontecendo e isso desencadeia um mistério no livro. 

Corujas, de Caio Fernando Abreu

O conto Corujas está presente na obra O inventário do irremediável, de 1995, coincidentemente, o ano em que nasci. Corujas nada mais é - falando apenas no conjunto das palavras que montam o texto - o relato da estadia de dois seres estranhos, aos olhos humanos, em um curto período de tempo em um lugar totalmente estranho e cheio de outros seres estranhos, aos olhos das corujas. É também a confissão do comportamento do narrador e de sua família diante dos novos integrantes e da interação entre eles. Acredito que o conto seja reflexo de algum fragmento vivido por Caio em sua infância e por isso ele o dedica aos seus pais e irmãos.

O conto é bem curtinho e dividido em cinco partes: Introdução, A Chegada, Batismo, A fome e Desfecho. Rasputin e Cassandra, como são batizadas as corujas pelo narrador, chegaram nessa residência em uma manhã bem cedo, levando para aquele ambiente curiosidade e de certo modo mudando a rotina daquela casa. Para os adultos não fazia muita diferença a presença dessas criaturas ali, mas para as crianças era algo completamente novo e extraordinário passar horas do dia acompanhando esses animais cheios de penas cinzentas que só se alimentavam de baratas. 

Existe uma frase no meio do conto com um peso tão grande que toda ideia dele se concentra nela e é a seguinte:

"O homem que as trouxera informara a minha mãe de seu orgulho: feridas em liberdade fazem greve de fome até a morte."

Círculos, de L.A. Tecau

Você se orgulha de todas as atitudes que teve ao longo da vida? Creio que não. É fato que aprendemos com nossas escolhas — com os erros e acertos que vem com elas —, mas acredito que todos convivemos com certas ações que gostaríamos de esquecer que tivemos ou, pelo menos, gostaríamos que ninguém, além de nós, soubesse. Em Círculos alguns personagens não tem essa opção, pois as suas piores atitudes são reveladas a outras pessoas em um grande espetáculo — ou melhor, em um show de horrores — sem que eles tenham qualquer controle sobre isso.

Círculos é uma novela de suspense ambientada na pequena cidade de Caramuru, Santa Catarina. Nosso protagonista é o Guilherme — ou Guy como é mais conhecido. Guy é cadeirante, perdeu, de um dia para o outro, o movimento das pernas e os médicos nunca souberam explicar o motivo.

Guy tem uma irmã, Catarina, que trabalha em um jornal que divulga notícias não muito convencionais. Atualmente está escrevendo uma reportagem sobre os círculos misteriosos que apareceram em sua cidade natal, Caramuru — não é a primeira vez que se tem notícia da aparição deles na cidade. Catarina não mora mais lá, mas Guy sim. Uma vez por mês Catarina vai a Caramuru visitar o seu irmão e, dessa vez, vai aproveitar a viagem para fotografar o lugar onde os círculos misteriosos apareceram para deixar sua reportagem mais completa.

Terra das Mulheres, de Charlotte Perkins Gilman

Charlotte Perkins Gilman foi uma escritora americana que viveu de 1860 a 1935. Minha primeira experiência com a autora foi com a leitura do conto O papel de parede amarelo, nele conhecemos a história de uma mulher que, por estar fragilizada e melancólica, acaba sendo internada pelo próprio marido em uma casa afastada e dorme em um quarto revestido por um obscuro e assustador papel de parede amarelo. Conto incrível que nos apresenta um relato pungente sobre o processo de enlouquecimento de uma mulher devido à maneira infantilizada e machista com que era tratada pela família e pela sociedade.

Como tive uma primeira experiência incrível com a autora fiquei curiosa para conhecer suas outras obras, mas apesar de compreender a importância da publicação do Terra das Mulheres e admirar a coragem e visão da autora por publicá-lo quando publicou e tratando dos temas que tratou, não gostei tanto da leitura, pois alguns pontos me incomodaram e outros não me convenceram.

Em Terra das Mulheres conhecemos um país que — como o título nos dá a entender — é habitado apenas por mulheres. No entanto, toda a história nos é contada sob a perspectiva de um homem. Três exploradores tomam conhecimento dessa sociedade onde homens, aparentemente, não existem e organizam uma expedição com o intuito de encontrar e desbravar essa Terra — Van, o narrador; Jeff; e Terry.

Antes de chegarem a esse país e conhecerem essas mulheres e sua forma de viver, esses três exploradores alimentam ideias extremamente machistas a respeito delas. E é triste e chocante perceber que muitas dessas ideias em relação as mulheres permanecem as mesmas até hoje. Segundo os três, uma terra habitada apenas por mulheres, seria caótica, selvagem, subdesenvolvida e inviável.

Top 10 melhores livros de 2018 • The New York Times

Recentemente o The New York Times divulgou uma lista com os 10 melhores livros publicados em 2018. Os editores do The Times Book Review selecionaram as dez melhores obras — de ficção e não ficção — publicadas esse ano; na sequência você pode conferir a lista completa.

Dos dez livros apenas três já foram publicados aqui no Brasil, confira abaixo quais são as obras que já foram traduzidas aqui.


Zona de desconforto, de Lindevania Martins

Zona de desconforto é o segundo livro de contos da Lindevania Martins vencedor do prêmio Benfazeja — editora que publica o livro aqui no Brasil. Sempre considerei mais difícil falar a respeito de algo que gosto muito, por isso não será uma tarefa fácil definir os contos presentes nessa obra, pois Zona de desconforto entrou, facilmente, para minha lista de melhores leituras realizadas esse ano e de melhores livros de contos que li na vida.

Uma sensação comum durante a leitura de contos é a de que faltou algo e que aquela história poderia (ou deveria) continuar por mais algumas páginas. Mas com a maioria dos contos desse livro isso não acontece. Eles são exatamente o que precisavam ser; entregam o necessário ao leitor, nem mais, nem menos: o essencial.


O livro é composto por oito contos que aparecem na seguinte ordem: Zona de desconforto, conto que abre o livro e que dá título a obra, traz uma história que nos deixa com um imenso aperto no peito ao retratar um fato atroz tão presente em nossa sociedade. A realidade de pessoas que deixam suas casas para tentar uma vida melhor em outra cidade, carregando sonhos e esperança de um recomeço, mas, muitas vezes, se deparam como uma realidade ainda mais cruel que a que deixaram para trás.

Vidas na noite, de Aione Simões

Encontrei o Vidas na noite totalmente por acaso e sua leitura foi uma grata surpresa pra mim. Estava procurando títulos disponíveis no kindle unlimited quando me deparei com ele e, o que me chamou atenção num primeiro momento foi o nome da autora — Aione Simões. Acompanho o trabalho da Aione com Literatura na internet há muito tempo e não sabia da publicação do seu livro. Como a sinopse me interessou, logo comecei a leitura e não consegui parar até terminar.

Vidas na noite é uma antologia com cinco contos bem curtos e muito envolventes. Vocês encontrarão histórias sobre aceitação, amizade, relacionamentos abusivos, perdão, atração. Cada um tem foco na história de algum personagem diferente, mas têm em comum o fato de se passarem em um mesmo ambiente: um bar. E, ao final, um acontecimento que conecta, de alguma forma, todas as histórias — o que achei genial e surpreendente.

Quando terminei a leitura assisti a um vídeo da Aione onde ela responde algumas perguntas de leitores sobre seu livro. E nele descobri que cada conto pertence a um gênero diferente — jovem adulto, chick lit, erótico, thriller psicológico. Confesso que não me atentei a isso enquanto realizava a leitura, foi apenas depois de vê-la falar a respeito que pensei melhor em cada uma das histórias e consegui perceber esses detalhes.